Fintechs e bancos tradicionais: até onde podem caminhar juntos?

Publicado em 3 de novembro de 2021.

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Meu pai é uma pessoa economicamente ativa, de 52 anos e que terminou o ensino médio e o técnico em edificações. Com uma renda legal se comparado a média brasileira, tem conta em um banco tradicional desde os seus 20 e poucos anos.

Um dia desses, após uma derrota do Flamengo, a paciência dele não estava das melhores e começou a reclamar dos valores que ele pagava de TED neste grande banco.

Logo dei a ideia mais óbvia pra ele: “Pai, porque você não abre uma conta no xxxxxx (um grande banco digital brasileiro)?”

Ele topou. Depois de inserir os dados necessários, fomos passar pelas validações de segurança como facematch. Meu pai tem miopia, um pouco de astigmatismo e não é muito bom manuseador de aparatos tecnológicos. Depois de muito mexer a tela pra lá, pra cá, afastar e distanciar ele falou: “Melhor pagar os R$ 7,90 de TED do que passar esse perrengue aqui, meu filho”. E largou o celular pra lá e ficamos vendo nosso programa preferido de debate esportivo.

 

Mercado de pagamentos e banking não precisa ser um jogo de rouba-monte

Muito se diz atualmente sobre o avanço das fintechs em um mercado tradicionalmente ocupado pelos grandes bancos. E, em manchetes, é comum haver termos como competição, concorrência acirrada, guerra e similares para falar da relação entre as startups que operam serviços financeiros por meio de soluções tecnológicas e as instituições financeiras convencionais.

Tenho uma visão menos maniqueísta. O mercado de meios de pagamento no Brasil é enorme e ainda pouco explorado se comparado ao seu potencial. Na minha humilde opinião, não é um jogo de rouba-monte e sim de desenvolvimento de novos “consumidores” que ainda estão à margem quando o tema são serviços financeiros. Quando fazemos este movimento, há espaço para todos.

Aqui vão alguns números para embasar a minha visão. De acordo com o relatório “2021 Global Fintech Rankings”, elaborado pela Findexable, o Brasil possui o maior ecossistema de fintechs na América Latina e o 14º em escala global. A cidade de São Paulo é a quarta do mundo nesta concentração, superada apenas por São Francisco (EUA), Londres (Inglaterra) e Nova Iorque (EUA).

E, se considerarmos por segmento, o financeiro é o quinto com maior número de startups, segundo a Associação Brasileira de Startups (Abstartups) O motivo é simples: há uma demanda imensa por serviços bancários práticos e de qualidade.

Mais uma pesquisa importante: o Instituto Locomotiva revelou que 42% dos brasileiros possuem contas em bancos digitais. Mas isso não significou enfraquecimento dos bancos tradicionais: 74% dos usuários de bancos digitais também possuem conta em um banco tradicional.

Meu pai, desde a derrota do Flamengo para o Bragantino, é um deles: conta em um grande banco digital e um grande banco tradicional. Porém, a experiência que a grande maioria das pessoas acha incrível em um banco digital, não serviu para o meu pai. Em um cenário ideal, talvez ele valorize mais a experiência eficiente em uma agência do que o super atendimento por chat e está tudo bem.

Prefiro ver a relação entre os novos e antigos players do setor como uma via de mão dupla, ainda que em alguns momentos haja, sim, uma concorrência saudável, principalmente para o consumidor. As fintechs vêm trazendo uma grande oportunidade para as instituições financeiras convencionais melhorarem alguns pontos, mas também têm tirado proveito da robustez dos gigantes do mercado para ganharem escala.

 

Fintechs e bancos tradicionais: que tal falarmos de parceria?

Os bancos possuem algumas estruturas consolidadas e serviços que podem ser utilizados por fintechs. Já as fintechs têm um nível maior de inovação, agilidade e solução de problemas específicos. Ainda nem precisamos citar a nível de produtos: produtos de fintechs podem ser complementares a produtos de bancos tradicionais e vice-versa.

Dock trabalha nessa ligação entre o novo e o tradicional, sanando as dores de ambos os lados: para as grandes instituições financeiras, agilidade nas implantações. Para startups e Fintechs, tecnologia de ponta para que elas comecem a partir de uma estrutura sólida já montada.

Na minha visão, unindo forças, cada um na sua especialidade e com suas potencialidades, ganha o mercado como um todo. Inclusão financeira, melhor experiência do usuário, clientes mais satisfeitos e um bolo maior para ser dividido. Afinal, infelizmente, nem fintechs, nem grandes bancos conseguem chegar a uma grande parte economicamente ativa da população hoje.

Quer um exemplo prático?

Estou de férias em Itacaré, uma cidade super turística no sul da Bahia. Aqui o Pix já chegou para a barraquinha na praia, para o mercadinho, para o barzinho na rua famosa da cidade. Mas ele ainda não chegou para a senhorinha que vende suas deliciosas cocadas em uma caixinha na praia.

Atualmente, cerca de 21% da população brasileira é desbancarizada ou faz o uso esporádico de contas bancárias ou de pagamento. Essa parcela é um pedaço da população que ainda nem fintechs e nem bancos tradicionais conseguem atingir e que movimentam cerca de R$ 350 bilhões ao ano (8% da massa de renda do país).

Então que tal, se unirmos forças, não conseguimos chegar a essas pessoas, aumentando ainda mais a fatia da população brasileira que utiliza serviços financeiros adequados à sua realidade? E no futuro, quem sabe próximo, que sabe possamos falar apenas em meios de pagamentos digitais, sem nomenclaturas diferenciadas para os diversos players?

 

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Foto Saulo Cirilo

Saulo Cirilo

Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Espírito Santo, iniciou sua carreira na Deloitte do Brasil, onde atuou na área de Corporate Finance por quase 3 anos. Logo depois assumiu desafios na área de Planejamento Financeiro de empresas de grande porte como Nestlé e Cielo atuando nas frentes de orçamento, análise de viabilidade de projetos e análise de performance e rentabilidade de categorias e canais de venda. Hoje atua na área de Desenvolvimento de Negócios da Dock.

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