Comércio agêntico: quando a IA decide pelo cliente, quem valida essa decisão?
O comércio agêntico está criando uma nova camada de interação entre consumidores e o setor financeiro. À medida que agentes de inteligência artificial passam a pesquisar, comparar e executar transações em nome dos clientes, surge uma questão central: como garantir que esse agente está autorizado a agir, que a transação respeita os limites definidos pelo cliente e que a decisão pode ser explicada e auditada?
Não há dúvidas de que a inteligência artificial já transforma a jornada de consumo. A McKinsey estima que agentes de IA podem intermediar de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões em comércio global de bens B2C até 2030.
A questão é que, no comércio agêntico, o cliente pode definir uma intenção, por exemplo, como encontrar determinado produto dentro de um orçamento, e delegar ao agente a tarefa de pesquisar, escolher e realizar a transação. Nesse último ponto a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver identidade, autorização, risco, fraude, autenticação e governança financeira.
Como bem apontado por Armando Junior, Strategic Alliances & Product Risk Director da Dock, e Pablo Morales, Sr. Partner Director da FICO, durante o Febraban Tech 2026, para instituições e empresas do mercado financeiro o desafio que emerge é entender quem está iniciando a transação, em nome de quem, com qual autorização e dentro de quais limites.
Comércio agêntico: do “me mostre” ao “faça por mim”
A diferença entre um assistente de IA e um agente está no grau de autonomia. Enquanto um assistente apresenta opções, um agente pode receber uma instrução como “encontre a melhor opção dentro desses critérios e compre se estiver abaixo deste valor”, e a partir daí tomar decisões em nome do usuário.
Essa mudança cria uma nova camada na infraestrutura de pagamentos. Se antes os sistemas relacionavam uma transação a um cliente, conta, cartão ou meio de pagamento, agora precisam considerar também o software que age em nome desse cliente.
Isso exige limites claros de autorização. Um agente que apenas consulta preços representa um risco diferente daquele que pode iniciar um pagamento.
Da mesma forma, um agente autorizado a comprar uma passagem aérea até determinado valor não deveria necessariamente ter permissão para contratar um empréstimo, movimentar uma conta digital ou realizar uma transferência.
No comércio agêntico, portanto, a premissa mais importante é que delegar uma decisão financeira não significa abrir mão do controle sobre ela.
O impacto do comércio agêntico no setor financeiro: quem está agindo?
O sistema financeiro já possui uma longa experiência em identificar clientes, autenticar usuários, avaliar transações e administrar riscos. Porém o comércio agêntico acrescenta uma nova variável: o agente que atua em nome do cliente.
Essa mudança parece simples, mas tem implicações profundas. Imagine um cliente autorizando um agente a realizar compras até determinado valor. A instituição ou empresa precisam saber:
- Qual agente recebeu a autorização;
- Quem concedeu essa autorização;
- Quais operações o agente pode executar;
- Quais valores e categorias estão permitidos;
- Quais contas ou instrumentos pode utilizar;
- Por quanto tempo a autorização é válida;
- Quais dados o agente pode acessar;
- Se o comportamento observado permanece dentro dos parâmetros autorizados.
KYA: conheça quem está agindo pelo cliente
Com o comércio agêntico, uma instituição ou empresa que oferece serviços e produtos financeiros pode deixar de interagir diretamente com uma pessoa em determinadas etapas da jornada. Em seu lugar, pode existir um software autorizado a representar aquele cliente.
Nesse contexto, o modelo tradicional de Know Your Customer (KYC), ganha uma nova camada: o conceito de Know Your Agent (KYA), uma abordagem que pode se tornar importante nessa nova dinâmica financeira.
KYA não significa apenas identificar tecnicamente um agente. Significa estabelecer mecanismos para determinar sua legitimidade, sua relação com o cliente, suas permissões e os limites dentro dos quais pode operar.
Na prática, isso pode significar associar uma identidade digital do agente a uma autorização específica, com escopo, valor, prazo, finalidade e condições de uso claramente definidos. Essa distinção é importante porque identidade e autorização precisam ser tratadas como camadas diferentes da mesma relação.. Saber quem é o cliente não será suficiente. A instituição também precisará saber quem está agindo pelo cliente e o que esse agente está autorizado a fazer.
Autorização deixa de ser binária
Nos modelos tradicionais, muitas autorizações são tratadas de forma relativamente simples: o cliente tem ou não tem permissão para realizar determinada operação. Com agentes, essa lógica pode ganhar mais granularidade.
Com agentes, essa lógica muda. A autorização passa a incorporar contexto, intenção e limites, permitindo diferentes níveis de autonomia. O agente pode estar autorizado a:
- Executar: realizar determinadas operações;
- Consultar: acessar informações específicas;
- Decidir: escolher entre opções dentro de parâmetros definidos;
- Condicionar: agir apenas quando determinadas condições forem atendidas.
A própria evolução do comércio agêntico mostra por que esses níveis de autonomia precisam ser tratados de maneira diferente. O consumidor pode estar confortável em delegar a escolha de um produto, mas querer manter a aprovação final do pagamento.
Pesquisa recente da Mastercard mostra exatamente esse comportamento: quase um terço dos consumidores aceita que o agente escolha o que comprar com base em preferências e orçamento, desde que o consumidor mantenha a aprovação final.
Explicabilidade: é preciso entender por que aconteceu
Quanto maior a autonomia dos agentes, maior a importância de conseguir explicar suas decisões. Não é necessário revelar todos os detalhes técnicos do modelo de IA, mas é importante compreender os principais elementos que levaram àquela decisão ou operação.
Em uma contestação, a instituição ou empresa precisam conseguir responder:
- Qual era a intenção do cliente?
- Qual agente recebeu a autorização?
- Quais eram os limites dessa autorização?
- Quais informações estavam disponíveis para o agente?
- Por que a operação foi considerada compatível?
- Como a decisão foi autenticada e validada?
Auditabilidade: é preciso provar o que aconteceu
A explicabilidade mostra por que uma decisão foi tomada. A auditabilidade permite demonstrar o que de fato ocorreu.
Isso exige registros confiáveis sobre as autorizações, decisões e operações realizadas pelo agente, permitindo verificar posteriormente se ele atuou dentro dos limites estabelecidos pelo cliente.
Mais do que registrar transações, a auditabilidade passa a ser uma forma de demonstrar que o agente atuou de acordo com a autorização recebida. Em caso de contestação, fraude ou incidente, a instituição precisa conseguir identificar:
- O que foi autorizado;
- O que foi realizado;
- Quem ou qual agente realizou a operação;
- Quais regras e condições estavam vigentes;
- Quais registros sustentam essa conclusão.
A fraude também pode se tornar agêntica
O avanço dos agentes também transforma o cenário de fraude. Esse foi um dos pontos discutidos por Armando Junior, Strategic Alliances & Product Risk Director da Dock, e Pablo Morales, Sr. Partner Director da FICO, durante palestra sobre comércio agêntico no Febraban Tech 2026.
Se agentes legítimos podem pesquisar, comprar e pagar, agentes maliciosos poderão tentar fazer o mesmo. Com isso, os sinais tradicionais de fraude precisarão ser analisados em um novo contexto. . Uma transação realizada em poucos segundos, por exemplo, pode ser suspeita para uma pessoa, mas perfeitamente normal para um agente.
Nesse cenário, a análise de risco precisa considerar:
- Se o agente é legítimo e está autorizado;
- Se a operação respeita as permissões e limites concedidos;
- Se o valor e o estabelecimento são compatíveis com a intenção do cliente;
- E se o comportamento do agente é esperado.
O risco, portanto, não estará apenas na transação, mas também na identidade, nas permissões e no comportamento do agente que a executa, uma vez que pode ser falsificado, comprometido ou agir fora dos limites recebidos.
Essa mudança traz pelo menos quatro desafios para a prevenção a fraudes: entender o contexto da operação, adaptar a experiência de pagamento e adequar a infraestrutura.
Contexto passa a fazer parte do risco
A operação também precisa ser analisada dentro do seu contexto. Histórico do cliente, intenção, autorização, comportamento do agente e características da transação passam a compor uma mesma avaliação.
A pergunta será menos se aquela operação é usual e mais se ela faz sentido para aquele cliente, naquele momento e por meio daquele agente.
O pagamento exige uma nova experiência
É no pagamento que essa nova dinâmica encontra a infraestrutura financeira. O desafio é permitir que o agente execute a decisão sem transformar a automação em uma sequência de confirmações manuais.
Isso exige um equilíbrio entre autonomia, segurança e fricção. Quanto mais autonomia o agente tiver, mais importante será que os controles funcionem de forma silenciosa e proporcional ao risco.
A infraestrutura precisa acompanhar
O comércio agêntico acrescenta uma nova figura à transação: o software que age em nome do cliente. A infraestrutura financeira precisa reconhecer essa atuação e conectá-la a identidade, autorização, autenticação, risco e auditoria.
Muito além de criar novos produtos, a oportunidade para instituições e empresas do setor financeiro está em adaptar essa infraestrutura para uma realidade em que o cliente nem sempre será quem inicia diretamente a transação.
O desafio de construir essa camada de confiança é especialmente relevante no Brasil. A Pesquisa Observatório Febraban 2026, mostra que 84% estão preocupados com golpes, fraudes e crimes digitais relacionados à inteligência artificial.
Dock e FICO: a infraestrutura para uma nova era de pagamentos
À medida que agentes de IA passam a realizar transações em nome dos consumidores, a capacidade de identificar comportamento financeiro suspeito e prevenir fraudes se torna ainda mais importante.
Nesse cenário, a parceria entre Dock e FICO fortalece a oferta de soluções financeiras, aprimorando a infraestrutura de instituições e empresas com tecnologias avançadas de monitoramento de transações e detecção de fraudes.
No comércio agêntico, essa colaboração ganha ainda mais relevância. Afinal, não basta processar uma transação: é preciso avaliar se ela é legítima, se está dentro das permissões concedidas e se o comportamento observado é compatível com o contexto.
Assim, Dock e FICO ajudam a criar uma camada adicional de segurança, inteligência e confiança para um mercado em que cada vez mais transações poderão ser iniciadas e executadas por agentes de IA.
O próximo cliente pode não estar clicando. Pode estar delegando. E a infraestrutura financeira precisa estar preparada para isso. Conheça as soluções da Dock e descubra como preparar sua operação para a nova era dos pagamentos.
FAQ: comércio agêntico e setor financeiro
O que é comércio agêntico?
É um modelo em que agentes de IA atuam em nome do consumidor para executar etapas da jornada de compra, como pesquisar, comparar, decidir e, dentro das permissões estabelecidas, realizar transações.
Qual é a principal mudança trazida pelo comércio agêntico?
A principal mudança é que a transação deixa de envolver apenas quem paga e quem recebe e passa a envolver também quem está autorizado a agir em nome de quem paga.
O que é Know Your Agent (KYA)?
É uma abordagem de governança voltada a identificar agentes, validar sua legitimidade, entender quem os autorizou, quais permissões possuem e se seu comportamento permanece dentro dos limites estabelecidos.
Qual a diferença entre KYC e KYA?
O KYC busca conhecer e validar o cliente. O KYA adiciona uma nova camada: entender qual agente está atuando em nome desse cliente e quais ações está autorizado a executar.
O comércio agêntico aumenta o risco de fraude?
O comércio agêntico cria novos vetores de risco. Agentes maliciosos podem tentar se passar por agentes legítimos, assim como agentes legítimos podem ser comprometidos e permissões excessivamente amplas podem ser exploradas.
Por que instituições e empresas precisam se preparar agora?
Porque mecanismos de identidade de agentes, autorização granular, monitoramento, prevenção de fraude e auditoria precisam ser incorporados à infraestrutura antes que a autonomia dos agentes alcance escala.
Comércio agêntico: o que você viu neste artigo
- O comércio agêntico muda a relação entre cliente e instituição financeira, à medida que agentes de IA passam a pesquisar, decidir e executar transações em nome do consumidor.
- O KYC ganha uma nova camada com o KYA (Know Your Agent). Além de saber quem é o cliente, instituições e empresas precisam identificar quem está agindo em seu nome, quais são suas permissões e dentro de quais limites pode operar.
- A autorização deixa de ser binária e passa a considerar intenção, finalidade, valor, prazo, instrumento de pagamento e contexto da operação, permitindo que a autonomia do agente seja limitada e governada.
- A infraestrutura de confiança se torna estratégica, combinando identidade, autorização, autenticação, prevenção a fraudes, monitoramento, explicabilidade e auditoria criar as condições para que agentes possam operar em nome dos clientes com mais segurança e rastreabilidade.
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