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Pagamentos e serviços financeiros na Argentina: desafios, oportunidades e tendências do setor

Publicado em 31 mar 2025. 12 minutos de leitura
Pagamentos e serviços financeiros na Argentina: desafios, oportunidades e tendências do setor

A América Latina tem se destacado, nos últimos anos, como um pulsante centro de inovação financeira. Impulsionados por novas tecnologias, os principais países da região têm implementado soluções únicas de infraestrutura bancária e meios de pagamento. O estudo “Terras de Oportunidades 2ª Ed. –  O poder financeiro da América Latina”, lançado recentemente pela Dock, analisa os desafios, oportunidades e tendências do setor no território latinoamericano e examinou o cenário de pagamentos na Argentina.

 A segunda edição do levantamento realizado pela equipe de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Dock oferece um panorama completo e aprofundado sobre o mercado latino-americano de banking e pagamentos, explorando as principais tendências, desafios e oportunidades que emergem em países-chave da região, como Brasil, México, Peru, Colômbia, Chile e Argentina.

Ao mesmo tempo em que enfrenta desafios macroeconômicos significativos — como inflação persistente, escassez de reservas internacionais e a elevada desvalorização cambial —, a Argentina tem passado por uma transformação digital notável em seu setor financeiro. Esse movimento de modernização se reflete na rápida adoção de carteiras digitais, crescimento expressivo do e-commerce e inovação em soluções de pagamentos instantâneos, como é o caso do sistema Transfers 3.0.

Neste artigo, mergulharemos nos insights da 2ª edição do Terras de Oportunidades. Abordaremos o panorama dos serviços financeiros na Argentina, explorando as principais oportunidades e tendências para o ecossistema financeiro do país. Além disso, detalhamos as inovações que pairam no horizonte do mercado argentino, como, a diversificação de meios de pagamento e a utilização de criptomoedas pela população.

 

Argentina: um contexto econômico complexo

 

A Argentina possui uma das economias mais complexas da América Latina, enfrentando desafios econômicos persistentes há décadas. Embora tenha o terceiro PIB per capita da região, ficando atrás do Brasil e do Chile, o país sofre com uma forte inflação anual, que alcançou 209% em 2024, e uma atividade econômica crescendo em um ritmo lento.

Embora o PIB da Argentina tenha apresentado um crescimento negativo de -1,6% em 2023 a US$ 641 bilhões, projeções indicam que a economia deverá voltar a crescer nos próximos dois anos: 3,5% em 2024 e 5% em 2025. Para fazer jus a essas estimativas, o país terá de contornar a dívida pública alta, a escassez de reservas internacionais e a constante desvalorização cambial.

Diante desse contexto desafiador, de hiperinflação e baixa atividade econômica, os consumidores argentinos têm procurado alternativas para enfrentar as incertezas do cenário atual. Soluções como as carteiras digitais e os sistemas de Compre Agora, Pague Depois (BNPL) surgem como opções viáveis para preservar o poder de compra e manter o nível de consumo estável.

As carteiras digitais, por exemplo, têm desempenhado um papel fundamental nesse processo de adaptação às incertezas. Atualmente, esse meio de pagamento representa 31% das operações no e-commerce e 18% das transações realizadas em pontos de venda no país. Mercado Pago, MODO, Ualá e Brubank são as principais alternativas utilizadas pela população, permitindo transferências de forma rápida e segura.

A ascensão do e-commerce na Argentina também é outro exemplo da adaptabilidade à turbulência econômica vivenciada pelo país. Na procura por melhores condições de preço, promoções exclusivas e praticidade, consumidores argentinos têm migrado para o digital. Apenas no primeiro semestre de 2024, o comércio eletrônico cresceu 248% no país, em relação ao mesmo período do ano anterior. A expectativa é de que o varejo digital cresça 18% ao ano e chegue a valer US$ 55 bilhões em 2027.

 

A resiliência dos serviços financeiros na Argentina

 

Com uma população altamente conectada — 90% dos argentinos têm acesso à internet e 76% possuem um smartphone — a Argentina se destaca como um terreno fértil para a adoção de soluções financeiras digitais. Essa abertura tecnológica tem sido uma resposta resiliente aos desafios econômicos, refletida no fato de que 65% da população já efetuou ou recebeu pagamentos digitais.

O e-commerce argentino possui um interessante exemplo de solução criativa para a realização de pagamentos. Serviços como o Pago Fácil e o Rapi Pago, por exemplo, permitem que os consumidores não bancarizados façam compras online e realizem o pagamento presencial. Esse modelo funciona de forma semelhante ao boleto bancário no Brasil: após realizar uma compra online, o cliente pode gerar um comprovante com código de barras e efetuar o pagamento com papel-moeda em um ponto físico autorizado.

Outro componente fundamental do avanço da digitalização financeira no país é a popularização dos pagamentos via QR Code, principalmente por conta da popularização do Transfers 3.0, sistema de pagamentos instantâneos lançado em 2021 pelo Banco Central da República Argentina (BCRA).

Como o Transfers 3.0 é baseado na interoperabilidade de códigos QR entre diferentes bancos e carteiras digitais, ele permite que os consumidores realizem pagamentos de maneira instantânea, mesmo que o remetente e o destinatário utilizem instituições distintas — uma inovação que fomenta a inclusão e reduz barreiras de acesso ao sistema financeiro.

Com isso, o Transfers 3.0 tem promovido a convergência entre o varejo físico e digital, criando um ecossistema de pagamentos mais eficiente e acessível. Desde o seu lançamento até setembro de 2024, o sistema já foi responsável por mais de 615 milhões de transações, com um volume financeiro transacionado de US$ 50,5 trilhões.

 

Apesar do crescimento expressivo desses meios digitais, o dinheiro em espécie ainda representa cerca de 27% das transações em pontos de venda, especialmente em pequenos comércios e regiões menos bancarizadas. Ele segue valorizado por consumidores que preferem evitar custos adicionais ou que não têm acesso a alternativas mais modernas.

Paralelamente, os cartões de crédito continuam sendo amplamente utilizados na Argentina. Nos pontos de venda, são responsáveis por 25% das operações, enquanto que, no e-commerce, correspondem a 35% dos pagamentos. Parte da força desse meio de pagamento no comércio eletrônico vem da oferta de parcelamento por bancos e fintechs, especialmente para compras de alto valor.

 

Tendências e oportunidades no setor de pagamentos e serviços financeiros na Argentina

 

Fintechs, bancos e empresas que desejam participar da modernização do sistema financeiro peruano podem aproveitar oportunidades significativas de atuação no país.

Confira algumas das tendências e oportunidades que as instituições podem aproveitar no crescente ecossistema financeiro digital da Argentina.

 

Open Banking fragmentado

A ausência de uma regulamentação clara sobre Open Banking representa tanto um desafio quanto uma oportunidade para o mercado argentino: por um lado, dificulta a interoperabilidade e a transparência dos serviços financeiros; por outro, cria um ambiente propício para que startups e empresas de tecnologia entrem com propostas inovadoras para padronizar e melhorar o compartilhamento de dados financeiros no país.

Mesmo com a falta de padronização, algumas instituições financeiras têm investido em projetos próprios de Open Banking. No entanto, sem diretrizes regulatórias unificadas, o progresso tende a ser lento. A regulamentação futura poderá destravar ainda mais o potencial competitivo desse mercado e viabilizar novos modelos de negócio centrados em dados.

 

Ecossistema de fintechs em expansão

A Argentina conta com um ecossistema robusto de inovação financeira, com aproximadamente 383 fintechs ativas, o que representou um crescimento anual de 11,7% no número dessas companhias de base tecnológica. Esse movimento é impulsionado pela combinação entre um ambiente econômico desafiador e uma população cada vez mais digitalizada e aberta à experimentação tecnológica.

As principais áreas de atuação dessas fintechs estão concentradas em pagamentos, remessas, crédito alternativo e gestão financeira para empresas. Muitas dessas startups têm desempenhado um papel decisivo na ampliação do acesso ao crédito e à digitalização de serviços, sobretudo para pequenos empreendedores e consumidores desbancarizados. O cenário atual oferece uma janela estratégica para investimentos e parcerias com essas empresas emergentes.

 

Criptomoedas

Diante de uma inflação descontrolada e da constante desvalorização do peso argentino, as criptomoedas têm se consolidado como uma alternativa viável de proteção de valor para os argentinos. Em 2023, as transações em criptoativos somaram aproximadamente US$ 85,4 bilhões no país, consolidando a Argentina como líder no uso de criptomoedas na América Latina.

A adoção de criptoativos não se restringe apenas a investidores. Cada vez mais, pequenas empresas, freelancers e usuários comuns estão utilizando stablecoins e outras moedas digitais como meio de pagamento e reserva de valor. Esse movimento tem fomentado a criação de produtos e serviços baseados em blockchain, desde carteiras até plataformas de câmbio, expandindo o mercado de cripto no país.

 

Crédito alternativo e Embedded Credit

As fintechs argentinas têm se destacado ao oferecer soluções de crédito alternativo, especialmente o chamado crédito embutido (Embedded Credit), diretamente integrado às plataformas de e-commerce e aplicativos de serviços.

Já são mais de 5,65 milhões de pessoas beneficiadas por linhas de crédito alternativas via startups, e esse modelo tem se mostrado eficiente para incluir financeiramente quem não possui acesso ao crédito tradicional.

Essa abordagem permite que consumidores realizem compras parceladas ou obtenham crédito de forma rápida e sem burocracia, tornando-se especialmente relevante em um contexto de alta inflação e juros elevados. Além de beneficiar o consumidor final, esse tipo de crédito representa uma oportunidade de fidelização e aumento de vendas para os varejistas, criando um ciclo virtuoso de consumo e acesso ao crédito.

 

América Latina: terras de oportunidades

 

Os avanços no setor financeiro na Argentina fazem parte de um movimento mais amplo que ocorre em toda a América Latina. O estudo “Terras de Oportunidades 2ª Ed.” oferece uma visão abrangente sobre o ecossistema financeiro da região.

O material explora também o potencial de outros países, destacando indicadores macroeconômicos relevantes, perfis de consumidores e análises sobre inclusão financeira e digitalização.

Além disso, o estudo aprofunda tendências emergentes, como o avanço do Open Finance, e aborda inovações tecnológicas que estão redefinindo o futuro dos meios de pagamento e dos serviços bancários na região.

 

Brasil

O Brasil se destaca como líder em inovação financeira, com o sucesso do Pix e avanços significativos em Open Finance, impulsionando uma economia cada vez mais digital e inclusiva. Confira mais detalhes sobre o cenário de serviços e tecnologias bancárias do país neste outro artigo.

 

México

Apesar dos desafios de desbancarização e do uso predominante de dinheiro em espécie, o México tem avançado na digitalização dos serviços financeiros, impulsionado pelo crescimento do e-commerce e das carteiras digitais e ampliando a inclusão financeira. Você pode conferir mais detalhes no artigo que produzimos sobre o panorama do país.

 

Colômbia

A Colômbia apresenta um ecossistema fintech em rápida expansão, com destaque para a regulação avançada de Open Finance e o crescimento de soluções de pagamentos digitais e remessas internacionais.

 

Peru

Já o Peru tem mostrado um crescimento acelerado no uso de pagamentos digitais, apoiado por iniciativas governamentais de incentivo à inovação e à inclusão financeira, além de um ecossistema de fintechs em expansão, especialmente em áreas de crédito e gestão financeira.

 

Acesse o material completo para saber mais sobre as oportunidades no Brasil e em outras nações latino-americanas

 

Pagamentos e serviços financeiros na Argentina: o que você viu neste artigo

 

  • A economia argentina enfrenta desafios como inflação elevada, retração do PIB e desvalorização cambial, mas há projeções de crescimento para 2024 e 2025.
  • Em resposta à crise, os consumidores têm adotado soluções digitais como carteiras digitais, BNPL e e-commerce, impulsionando a digitalização financeira.
  • O e-commerce cresceu significativamente, demonstrando a busca por preços melhores e formas de pagamento mais acessíveis em meio à instabilidade econômica.
  • O Transfers 3.0, sistema de pagamentos instantâneos via QR Code lançado pelo Banco Central da Argentina, promove a inclusão financeira, especialmente em áreas urbanas.
  • O dinheiro ainda responde por 27% das transações, enquanto os cartões de crédito mantêm relevância ao se reinventarem com modelos de parcelamento e BNPL.
  • A Argentina conta com mais de 380 fintechs, com crescimento anual de 11,7%, atuando principalmente nos segmentos de pagamentos, crédito e gestão financeira.
  • O crédito alternativo, especialmente via embedded credit, beneficiou mais de 5,6 milhões de pessoas, oferecendo acesso simplificado ao financiamento em plataformas digitais.

 

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